segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DE MÃOS DADAS COM EMÍLIA

De repente me vi de mãos dadas com Emília. Bem de repente. É... Ela tem dessas artes. Conquista tão de repente que nem dá tempo da gente se defender. Calma, Lobato! Essa é outra Emília! É diferente... Tem um pouco dessa Emília lobatiana, porque diz o que quer. Por isso admiro-a. O que tem de bonita, tem de perguntadeira. Mas é perguntadeira no bom sentido. Sempre querendo saber que feitiço as pessoas colocam nas palavras. Dizer não basta pra ela. Temos que desfiar o nosso dizer. Ela precisa entender por quais becos aquelas palavras chegaram na nossa boca. E isso tem sido motivo de aprendizado!

Pois bem, Lobato. Ela não tem pó de pirlimpimpim, mas gosta de viajar nas entrelinhas das palavras pra saber o que elas estão tramando juntas. Detesta ser pega desprevenida. Mas, de quando em vez, as palavras ficam passeando por entre os seus neurônios. Armam lá uma boa bagunça na sua cabeça e ela encasqueta com algo que a gente fala. Tem que saber bem por onde anda.

Emília, essa que comigo caminha, tem outro nome,
mas tem uma personalidade fantasticamente forte. Sim, forte que chega a deixar a gente fraco. Às vezes, quando ando de mãos dadas com ela, tenho vontade de largar só pra provocar uma briga. Às vezes, as mãos (as minhas) puxam-na para mim, de modo que tenho a impressão que a sufoco. Coisas de possessividade masculina... Sei que o senhor, Lobato, também tem lá sua possessividade com Emília (a sua). Ainda mais agora que ela anda na boca de todos os outros poetas...

Olha, acho mesmo é que ela gosta de estar mais livre. Mas o diabo é que seu carisma atrai. E não consigo me controlar.
Qualquer dia desses, ela resolve largar a minha mão e pula para uma outra história. Aí sim, vou ter que me contentar com as minhas lembranças. Nesse caso, vou precisar da sua imaginação emprestada, Lobato!

Bom, não quero esticar a conversa. Daqui a pouco minha Emília vai dormir e não vou poder ficar de papo furado com você. Vai que ela lê essa homenagem que escrevi e encasqueta com alguma palavrinha...
Então, vamos começar (eu e ela) a discutir sobre o porquê de cada coisa. (E no fundo tenho que admitir que isso é uma forma de ficar mais perto dela, embora não possa revelar isso, porque senão já viu, não é Lobato; ela vai se inchar com os elogios e explodir de vaidade...).

Vou indo... Vou pegar na mão dela novamente. E você, Lobato, obrigado por me ouvir. Estava mesmo precisando despejar algumas palavrinhas... Quem sabe, num próximo capítulo conto mais coisas da minha aproximação dela.


Cenas para um próximo texto...

Esse texto é uma homenagem a Adelma, uma pessoa muito especial.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

POR UM QUASE

Essa é uma história pra quem gosta de intimidade com o dinheiro...

Diz que o cara vinha, desde quando se entendeu por gente, jogando na loto. Jogava... jogava... jogava... E nada de acertar os tais dos números. Resolveu pedir sugestão. Mas logo abandonou a ideia quando percebeu que ia ter de dividir o dinheiro, porque quem ia ganhar não ia ser ele sozinho. Afinal, assistia ao noticiário e sabia como aquelas coisas acabavam. E briga por dinheiro era que nem briga de trânsito, acabava mal para um dos lados. No caso, sempre o mais fraco. E ele não era bom de briga. Nem de trânsito. Sabia que ia sobrar pra quem não tinha conhecimento!

Decidiu então mudar o volante do jogo. De um jogo passou para outro. Quem sabe aí a sorte não mostrava sua cara. Mas ela continuou bem mascarada, bem entocada. Parecia aquele diabo de rato que morava de favor em sua casa. Não saía nem a pau! Não havia moleque arteiro que botasse Mickey Mouse - era assim que ele chamava o danado... que lhe perdoasse a Disney - pra correr! Nem na pedra, nem na ratoeira, nem na vigília, nem nada, nada nem. Não adiantava trocar estratégia que o danadorato não deixava as fuças à mostra. Era que nem a tal sorte, se é
que ela existia.

Aí ele teve uma sacada: resolveu apostar na sorte dos outros. Quem sabe assim, não espiava a sorte, nem que fosse um tantinho assim ó... (bom, mas esquece, que os leitores e as leitoras nem podem enxergar o tantinho que era... nem com óculos de grau!). Resolveu, pois apostar no bolão. A sorte dos outros ia seduzir a dele.

Rapaz... não é que ele passou perto. Quase ganhou na loto. Já pensou? Ia sobrar dinheiro até pra distribuir para leitores e leitoras. Mas o fato foi um só: apostou no bolão com dindin emprestado. E dinheiro emprestado, significava sorte emprestada. E mais: prêmio repartido. E se o sujeito que emprestou, seu vizinho de bairro, fosse ter com ele na hora do prêmio? Sabe que essas coisas sempre funcionam assim... Sujeito ia dizer que os juros correram mais que ele de Marinalda, da venda, por causa da dívida crescida. E aí já viu! Ia querer tomar dele inclusive as cuecas. Senão...

Resolveu torcer contra.

E não é que funcionou? Não ganhou por um quase! E depois dizem que um QUASE não é importante na língua portuguesa! Por causa do quase, não teve dor de cabeça. E parou de jogar. Vai que um dia ganha... Aí quantos interessados vão aparecer? MUITOS! Não estava mais afim de aturar nem gente de olho grande, nem os intensificadores da língua (se é que suas aulas de gramática serviram ao menos pra classificar os termos de modo correto...).

Por via das dúvidas, resolveu então terminar a história. Sair do quase e ir ao ponto final.

JOÃO NOEL

Mas eita sujeito sorrateiro! Chegou na nossa vida de mansinho...

Deixou nossa cabeça a mil com suas falas tão ajustadas! E depois resolveu ir fabricar mais presentes em outro lugar! Por que deixou suas meias recheadas de lições e não nos avisou que ia partir? Essa matemática a gente não entende, não!

Aliás, a matemática da vida é mais difícil do que as equações de primeiro ou segundo graus. A morte tem variáveis que não cederam ao domínio do mestre João. E ele parecia dar sinais de que o Natal seria assim, sem seu saco de surpresas.

Mas não deixou de fazer muita mágica na sua didática... gostava de surpreender quem levava a vida de modo pessimista. Curtia a simplicidade e simplificava as fórmulas de alguns problemas da vida de tal modo que parecia fácil viver em paz e com sabedoria!

Pois é João Noel... Você deixa saudades, numa época que precisávamos muito das suas palavras tão sinceras! Precisávamos da sua humanidade... Os números não lhe deixavam frio, antes pelo contrário lhe deixavam mais atento, mais sensível à trajetória dos outros (algumas perpendiculares, outras paralelas, outras oblíquas...), mais observador...

Descanse em paz... E esteja por aqui, quando precisarmos! Sua presença é tão forte, que nenhuma ausência física vai lhe fazer sumir de nossas chaminés e de nossos corações esperançosos!

Apareça pra nos entregar seus presentes! Ho ho ho...

O Natal espera por você...

Texto escrito em homenagem ao professor João Assis, colega de FTC EAD, já falecido.

AI SE SESSE

Vamos ver como Zé da Luz fala de amor... Uma inspiração... Boa leitura!

video

Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=7BmvygOD1E0
Acesso em 18 de dezembro de 2009.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

VAMOS TRABALHAR, VAMOS TRABALHAR...

Vamos trabalhar, Academia!
Vamos trabalhar, com a voz da comunidade!
Deixe seu preconceito de lado.
Vamos ganhar um pouco mais de qualidade!
Vamos prantar sementes...
Vamos deixar de assassinar culturas...
Vamos subir ruas arribas e descer ruas abaixo...
Vamos buscar carregos grandes
de sabedorias...
Vamos escutar povos escondidos pela
cegueira da citação desenfreada...
Vamos abrir os olhos, Academia!
Vamos trabalhar, com a voz da comunidade!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O SAL TUPINAMBÁ

Esse vídeo é muito bom! Assistam e reflitam.

video

Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=t6TxsjOCWxY
Acesso em 10 de dezembro de 2009.

A HISTÓRIA DO MENINO SEM CONTOS

Era uma vez um menino ávido por palavras. Alimentava-se delas, porém não as engolia, mas sim as derramava sobre o papel. Quanto mais palavras molhavam o papel, mais ele matava sua sede de escritor. Gostava de escolhê-las e de combiná-las como nos jogos infantis. Desde muito pequenininho, o brinquedo preferido eram as letras. Mesmo sem conhecê-las, amava-as.

Quando pegou intimidade com as palavras, a história foi de obsessão: vivia para escrever. Contava aventuras de uma turminha da sua idade que resolvia os crimes de uma cidade fictícia, de São Paulo. Amor, morte, vingança, solidariedade… criatividade: tudo isso enchia as páginas de vida e de movimento.

E a escola? Não enfrentava grandes tempestades em copo d’água. A Norma não o amedrontava com a sua aparência da Cuca lobatiana. Adquirira a esperteza de Emília e conseguira aliar as regras da escola com a criatividade de seus contos. Era, pois, um menino rico. Possuía muitos contos. Aquela fase de sua vida, quando começava a arrecadar palavras… ele a desfrutara incessantemente.

E então veio a universidade. O curso mais simpático aos seus olhos era Letras Vernáculas. Concentrou em Literatura e seguiu criando intimidade com pleonasmos, aliterações, metonímias, metáforas, hipérbatos, rimas, versos… No início do curso, tinha contos suficientes para contar vantagens e comprar sentidos sortidos para os enunciados. O seu cofre de imaginação estava farto. Encharcara, já, as laudas de muitas letras.


Entretanto, cada vez mais, o tempo para contar foi se restringindo, se restringindo, se restringindo… até que desapareceu. O menino não economizou contos: alguém lhe pedia emprestado para integrar a revista do Diretório Acadêmico, lá estava ele oferecendo; outro lhe solicitava algum para o painel da unidade, pois lá ia mais um; alguma lhe implorava um continho de presente, e ele lá não sentia dó? E para não encompridar a conversa, o menino resolveu contar tudo a um computador e… um belo dia este engoliu seus contos! Foi como uma notícia de falência! Perdeu seus contos. Ficou pobre. E a faculdade não permitiu que arrecadasse mais! Que lástima para um menino das Letras!


Ah! Mas ainda havia uma esperança! Sua imaginação estava guardada a sete chaves! Bem segura. Podia contar oralmente. A riqueza não estava perdida. A fonte não secara. O papel ainda beberia das suas palavras. Ele ainda se relacionava com o mundo e daí podia fabricar contos. Era só ter a tal imaginação. O menino de outrora não era um homem, como diziam por aí, afinal sempre carregaria o menino consigo. Isso ninguém entendia: se crescera de tamanho, deveria se comportar da maneira desenhada para aquele degrau de sua escalada. Qual nada! O menino estava lá, como uma gota de orvalho prestes a cair. Mas o caimento não significava desaparecimento. Em cada situação, o menino poderia reaparecer ou não. Nascimentos como o piscar dos olhos estelares: algumas piscadelas eram mais intensas e eram nessas intensidades que os nascimentos do menino se efetivava. Nascia e tornava à condição de orvalho nesse piscar.


E então veio um outro problema: outros contos em linguagem mais afastada em relação ao mundo do menino foram entregues para que lesse. Fruto de uma ocupação e não de uma produção natural dele, fruto de uma tradição que dizia o que ler em cada curso e não de uma paquera de dois cofres de imaginação que se encontravam e trocavam palavras. De fato, isso fez com que matasse o menino que insistia em nascer num piscar das estrelas. Queria que não fosse uma morte definitiva. Esperava renascê-lo mais vezes. Porém, aquela morte levara-lhe as palavras, levara-lhe o cofre, levara-lhe os contos.


O que faria? O homem não sabia ser somente homem. Queria sua meninez. Queria contos. Queria vida. Não conseguia arrecadar palavras com a linguagem seca que mal fixava as letras nas laudas. As letras caíam no mínimo movimento do papel. Diferente das palavras dos contos que molhavam o papel, de modo que o antigo menino enxergava vida nos enunciados. Perdeu essa capacidade: a de enxergar. Agora, ele, o homem, binoculava, por lentes menos imaginativas. Ficou desorientado, no meio de tanta orientação. Perdeu o amor pelas letras. A relação tinha se transformado em rotina.


Foi aí que o homem pensou no princípio. Resolveu que não ia mais teclar, mas sim desenhar as palavras. O costume tinha provocado uma tecnocriatividade: só encontrava um fio criativo quando estava com os computadores. Rompeu o bloqueio. Conversou com alguns meninos famosos na arte de molhar os papéis. Pegou um lápis e acariciou as letras. Imaginou sobre quando era menino. E o seu menino re-apareceu. Lá estava o sorriso dele novamente.


Então entendeu que as duas linguagens podiam estar no menino. Ele podia conviver com ambas. Ele não estava morto e nem morreria em definitivo, mesmo após sua morte física. O menino era a estrela. E a estrela tinha bilhões de anos e cintilava sempre. Nesse momento, uma estrela piscou para o menino, também homem, e ele sorriu. Estava, novamente, rico: arrecadava novas palavras e molhava os papéis, enfim.