sexta-feira, 27 de agosto de 2010

UMA TESE É UMA TESE

MARIO PRATA

Crônica publicada no jornal O Estado de Sao Paulo.

7 de outubro de 1998.

Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.

As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese.

Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte.

O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre - sempre - uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.

São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?

Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha.

Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.

Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.

E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.

Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.

Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.

Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma
versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto.

Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?

Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso?

E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza.

Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.

Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou:

- Não vou mais estudar! Não vou mais na escola.

Os dois pararam - momentaneamente - de pensar nas teses.

- O quê? Pirou?

- Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês?

Pensando bem, até que não é uma má idéia!

Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história?

Acho que seria um tesão.

Disponível em: http://www.dsc.ufcg.edu.br/~copin/dicas/marioprata.htm, Acesso em 27 agosto de 2010.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

UM PUNHADO DE PALAVRAS

Pressão...
Escrita...
Burocracia...
Sono...
Aulas...
Notas...
Pressão...
DIVERSÃO!!!
Viagens...
Reuniões...
Sono...
DIVERSÃO!!!
Pressão...
Leituras...
Escrita...
É só um punhado
de palavras?...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

CONTRATEMPO

Passa tempo!
Temos tempo
pra o bom tempo?
Tem tempo...
Contratempo?
O tempo passa
E cura tudo...
Se entregue
ao passatempo
e terás tempo
pra temperar
a vida a tempo.
Tempestade?
pura temporada...
Contra o tempo
há remédio.
Tempere as horas,
temporize...
Invente e crie
sua temporalidade.
O tempo passa...
A temperatura é alta
temporize...
Faça seu tempo
e o contratempo
passa...

Resposta ao texto de Joselito, intitulado "Perda de tempo", postado no blog "Tecendo Fios com Jô".

quarta-feira, 14 de abril de 2010

DE COMO ME ENCONTREI COM O RISO

O que significa aquele riso estampado nas faces das meninas do Sitio de Mary? Sim, porque naquela sala-Sítio existe algum mistério... Nem as palavras das meninas ajudam a satisfazer a curiosidade que cutuca cada vez mais. Causos são contados? Soube que sim. Soube que os causos nem são controlados pelo grande relógio, tal como aquele que apressa o coelho da história de Alice. Soube que os causos simplesmente brotam... dos jardins cultivados com muito afinco pela plantadeira de sementes do riso, Mary Arapiraca. Com sua cesta de palavras que atiçam as meninas, cada vez mais, ela encanta e também provoca “coceiras” – não no sentido de incômodo, mas no sentido de alimento para a criatividade – e essas coceiras é que movimentam as palavras, tiram-nas do sofá. Pois não é que essa coceira me alcançou? E olhe que nem sei o que guarda aquela sala-Sítio... O que sei foi o que soube... Soube que ali seriedade e riso andam de mãos dadas como duas crianças brincando. Sim, ser sério não é ser sisudo, manter a “cara fechada”. Ser sério é tratar de coisas que são deixadas de castigo pelo currículo, mas que merecem estar na primeira fila, ou seria melhor dizer na roda? Olha, na verdade, verdade mesmo, nem sei dizer como esse riso está visitando a sala-Sítio... o que sei é que ele está por lá, pulando de colo em colo (das meninas e da grande mestra) porque estou sentindo-o nos olhos brilhantes das contadoras, que se revezam, mas não secam a fonte da alegria. O que sei é que o riso está me contagiando de tal modo que começo a redigir esse texto com muita coceira (parece até que derramaram pó-de-mico). A curiosidade já está comendo pelo centro (e não pelas beiradas)… o desejo de saber o que tem na sala-Sítio já mostra o quanto Meiremília tem muita amizade com os encantamentos... E é (foi) por isso que vou me deixar encantar... Feitiço com riso não deve dar em coisa ruim. O pó de pirlimpimpim vai me transportar para o mundo mágico daquela sala-Sítio. E acho que a coceira só vai se multiplicar. Eita coceirinha boa…

Texto elaborado antes de participar da primeira aula da disciplina O Riso no Currículo, ministrada, às quintas-feiras, pela professora Mary Arapiraca (FACED/UFBA) e assistida pelas suas cúmplices Luciene, Ana Paula e Auxiliadora, orientandas que trataram de me atrair para o "Sítio", mesmo que de passagem...

domingo, 11 de abril de 2010

JULIO E AS MOSCAS

Diz que o sujeito foi trabalhar no interior e logo que chegou na pousada foi recepcionado pelas clientes preferenciais. Nada de empregados em quantidade, mesmo porque negócio que se preze hoje carece de empregados, mas não de trabalho. E ali não era diferente. Em grande metrópole ou em cidade do interior (se é que é possível dizer que aquela era uma cidade do interior), a regra era a mesma: quanto mais o trabalhador conseguia acumular funções, mais era competente Então, o sujeito aprendia de tudo um pouco para agradar o patrão. Dar dor de cabeça ao chefe não era um bom sinal. Afinal, a fila andava rapidinho!

Pois a dor de cabeça do sujeito foi outra: as moscas. Em vez de recepcionado por elas, seria melhor dizer que foi espantado! Quem pensa que elas se curvaram diante dele, se enganou e muito! Elas já foram marcando território. E sabe qual era o jeito de fazerem isso? Nada de urinar, como faziam os cães. Não! As moscas voavam pelo espaço afora. Se a comida era servida, elas já estavam lá beliscando. Se a porta do quarto era aberta, elas já estavam pela cama, pela pia, pelos cantos com toda sua família. O cara tinha de conviver com todas, e nem tinha casado com uma mosquinha que fosse! E olha que a família era mais numerosa que de qualquer leitor ou leitora.

Foi aí que Julio (o tal sujeito) percebeu que já tinha perdido o terreno antes mesmo do jogo começar. Quem podia com as moscas? Nem mesmo o truque de colocar sacos plásticos cheios de água na parte superior das portas não funcionava. Aquele truque era velho! As moscas eram contemporâneas, aprendiam rápido, tal qual as crianças diante dos computadores. Adaptavam-se a tudo. Se bobear ainda piscavam o olho e diziam:

- Ô, brother! Essa aí não engana nem mosca morta, quanto mais nós que temos olhos nas costas!

E Julio viu que ou dividia o espaço com elas ou então iria realmente comer mosca. Com muito sacrifício decidiu dividir o espaço. Como eram muitas, teve de comer o resto da comida delas, teve de dormir protegido da nuvem que faziam, teve de tomar banho no quintal da pousada, pois elas ainda estavam zumbindo pelo banheiro...

Não resistiu. Foi ter com o único empregado da pousada para exigir uma atitude. E o pobre do empregado foi com uma daquelas inseticidas buscando resolver o problema de vez. É, mas parece que as moscas se fortaleciam com aquelas esguichadas venenosas.

- Oxe, veneno? Pra nós isso é um energético, cara! Isso deixa a gente agitada! Dá um gás danado!

- Tá! Eu desisto! Se não posso com elas, me junto a elas!

E foi assim que Julio foi dominado pelas moscas. Com o tempo, diz que até historinha ele contava para elas dormirem. As más línguas dizem que o sujeito virou mesmo foi cão de guarda. Protegia as moscas de outros hóspedes. Sobrou até para o empregado e para o dono da pousada. Contam que, em poucos dias, elas viram empresárias... já pensaram?

Em homenagem a um recente grande amigo Júlio Cezar.

sábado, 13 de março de 2010

VÍDEO DE TESTE COM CRIANÇAS...

Oi pessoal!

Assistam esse vídeo e se posicionem... É muito forte... Para os educadores, uma chance de refletir sobre como os processos educativos estão caminhando:




Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=1TCGvOmHtPg Acesso em 13 mar. 2010.

terça-feira, 9 de março de 2010

LUGAR DE MULHER

autora: SALETE MARIA

Do ponto onde me encontro

Na janela dum sobrado
Daqui donde me defronto
Com meu presente e passado
Fico metendo a colher
Do ‘meu lugar de mulher’
Neste mundão desgarrado
Do meu ângulo obtuso
Num canto da camarinha
Afrouxo um parafuso
Liberto uma andorinha
Desmancho uma estrutura
Arranco uma fechadura
Desmonto uma ladainha
Reza a história do mundo
Que mulher tem seu lugar
É um discurso ‘corcundo’
E prenhe de bla-bla-blá
Eu que ando em toda parte
Divulgo através da arte
Outro modo de pensar:
Lugar de mulher é quarto
Sala, bodega e avião
Lugar de mulher é mato
Cidade, praia e sertão
Lugar de mulher é zona
Do Estado do Arizona
À Vitória de Santo Antão
Lugar de mulher é sauna
Capela, bonde, motel
Lugar de mulher é fauna
Terreiro, campus, quartel
Lugar de mulher é casa
Seja na Faixa de Gaza
Ou no Morro do Borel
Lugar de mulher é cama
Seresta, parque, novena
Lugar de mulher é lama
Escola, laje, cinema
Lugar de mulher é ninho
Dos becos do Pelourinho
Às águas de Ipanema
Lugar de mulher é roça
Riacho, circo, cozinha
Lugar de mulher é bossa
Reisado, feira, lapinha
Lugar de mulher é chão
Das ruelas do Sudão
Às veredas da Serrinha
Lugar de mulher é mangue
Deserto, vila, mansão
Lugar de mulher é gangue
Novela, birô, oitão
Lugar de mulher é mar
Das praias do Canadá
Ao céu do Cazaquistão
Lugar de mulher é ponte
Trincheira, jardim, salão
Lugar de mulher é fonte
Indústria, baile, fogão
Lugar de mulher é mina
Do solo de Teresina
Ao Morro do Alemão
Lugar de mulher é barro
Palco, metrô e altar
Lugar de mulher é carro
Camarote, rede, bar
Lugar de mulher é trem
Dos caminhos de Belém
À serra do Quicuncá
Lugar de mulher é show
Favela, brejo e poder
Lugar de mulher é gol
Ringue, desfile e lazer
Lugar de mulher é creche
Das bandas de Marrakech
Às vilas do ABC
Lugar de mulher é serra
Obra, beco e parlamento
Lugar de mulher é guerra
Missa, teatro e convento
Lugar de mulher é pia
Das tendas de Andaluzia
À Santana do Livramento

Lugar de mulher é tudo
Por onde possa passar

Seja pequeno ou graúdo
Seja daqui ou de lá
Lugar de mulher é Terra
Mas não onde o gato enterra
O que precisa ocultar
Lugar de mulher é dentro
Mas também pode ser fora
Lugar de mulher é centro
Que a margem não ignora
Lugar de mulher é leste
Norte, sul, também oeste
De noite, tarde e aurora
De minha perspectiva
Mulher não tem ‘um lugar'
Onde quer que sobreviva
Pode ser seu habitat
Lugares existem zil
Eu mesma sou do Brasil
E vivo no Ceará!

Mais no blog http://cordelirando.blogspot.com/

sábado, 6 de março de 2010

CABEÇA DE VENTO

Certa vez, me flagrei correndo atrás de uma palavra que havia fugido... Mas não a alcancei. E não foi só ela que me passou a perna. Dezenas delas, justo na hora que mais precisei! Ajeitava meus neurônios para que me trouxessem uma ideia boa, mas eles tinham deixado um recado "fechado para balanço". Tive que aturar a visita constante de esquecimentos. Junto com as palavras, também as ações começaram a procurar arte. Brincando de esconde-esconde... Combinava uma coisa aqui e dez passos depois eu esquecia. Esquecia tanto que procurei um artifício: contar com as notas da agenda do celular para lembrar - hoje não precisamos mais enfeitar os dedos com barbantes (já foi essa época!). E quando comecei a esquecer o que escrever na agenda do celular? Vixe! Aí começaram a me chamar de Cabeça de Vento! E não é que ele - o vento - levava para bem longe palavras, ações, lembranças...? Então... então... xiiii! Então... esqueci! Esqueci como ia terminar a narrativa!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

MATUTANDO...

Tem que estudar... Bem que Naiana podia me perdoar. Acho que o jogo do São Paulo é hoje. Rapaz, mas como vou estudar sem o livro que emprestei pra Charles? Acho que Naiana gosta mesmo é de outro... Com aquele time, sei não! Seria melhor se contratasse algum jogador de peso! Que dor no estômago estranho! Preciso ver isso... Mas Naiana é uma piriguete mesmo! Como foi sair justo hoje? Ainda sozinha! Acho que o goleiro nem vai ser escalado. Vou tirar um zero... Porra, Naiana! Você não merece essa consideração toda, não! Será que chego a tempo de pegar a primeira sessão? Quem sabe não consigo alguma doida por lá... Naiana, Naiana! Você que tome juízo! Mas que diabo de dor de estômago insuportável! Será que Charles devolve o livro se eu pedir? Poxa, nem olhei quanto tinha de grana na conta... Tomara que aqueles sacanas me paguem amanhã! Naiana, onde tu tá, sua gostosa? Meu time que não perca hoje pra ninguém me sacanear amanhã! Olha, Naiana, só vou...

- Anda logo, merda! - Passou a marcha depois de ouvir o grito e saiu do cruzamento.

CHORANDO O CHORINHO

E foi aquela agonia, aquela festa quando uma das meninas resolveu dar corda para um tal chorinho que ia deixar a noite menos chorosa e mais melodiosa. Fez a propaganda, ensaiou o contato, orquestrou um transporte alternativo para o barzinho e pronto! Acendeu o grupo.

Ossos do ofício, tiveram de frequentar a manhã de mesas redondas e a tarde de sessões de comunicação no enorme campus da Universidade de Campinas. Mas logo viria a noite e, apesar do tempo friozinho, a ansiedade ardia em cada membro do grupo de professoras e a afinação parecia caminhar para um final de noite de bom lazer.

Hora do jantar. A tal regente não aparecera para dar o ar da graça e para fazer o chorinho tocar até altas horas. Foi o primeiro ruído… E olhe que o frio já dava sinais de que aquela era para ser uma noite de dança. Mas, os primeiros passos estavam sendo ensaiados para o caminho de casa. Isso sim. E essa dança não era lá muito boa de ser praticada.

No entanto, em todo grupo que se preze tem aquele que abana o fogo para ver se as chamas reacendem. E foi isso que aconteceu. Procura de lá, liga de cá, e a turma começou foi a tentar outro ritmo. O fato é que a vontade foi se esconder debaixo das cobertas. E não teve santo de casa que afinasse o coral de mulheres.

Ainda hoje, já em Salvador, há quem chore o chorinho não derramado; digo, não entoado. O tom da euforia foi bem desafinado em relação ao tempo e também ao sumiço da maestrina. Mas, como diz o ditado, antes só do que mal encaminhado!

Segunda crônica da prometida obra, fruto da viagem para Campinas-SP, para participar do Congresso de Leitura do Brasil (COLE), em 2009.

BAILANDO COM LOYOLA

Estávamos passeando nos estandes e o som das palmas ecoou nos convocando para um baile. O baile das palavras ocorria no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp. Baile que partia de um maestro: Inácio Loyola Brandão. Dia inesquecível do 17º Congresso de Leitura. Dia em que o som das palavras alimentou um Ginásio inteiro e duas pessoas (que nem pretensão tinham de saborear a fala do tal maestro) e assistiram a tudo, atônitos e de pé. Éramos nós.


Momento ímpar em que aprendemos a dançar um outro ritmo. Um ritmo de uma das escolas de Terezina, no Piauí… uma escola de um bairro pobre, bem pobre (da periferia, da periferia, da periferia, como cantou Loyola), mas rico (com cédulas de palavras!) de histórias! Rico de leituras.

Bailamos em meio a esses estudantes dessa escola e ouvimos suas experiências leitoras, apesar de todas as drogas no caminho… os estudantes liam. Liam para sobreviver em meio a alternativas vacilantes. E liam para contar aos colegas. Liam para oferecer-lhes palavras. Liam para saciar a sede de Literatura que devia alimentá-los.

E tudo começou não num reino distante das páginas de livros de contos de fadas. Tudo começou ali, em Terezina, com a disposição de alguns professores, que acharam que aula de leitura era também aula e não enrolação. E começaram com leituras. Depois os estudantes começaram a ler para contar. E daí, as aprendizagens foram acontecendo... um pouco como aconteceu com nós dois, que parados diante do maestro, ouvíamos as histórias de Loyola e aprendíamos a como dizer o mesmo de modo diferente e simples.

Como aprendemos a dançar com essas palavras do dia 22 de julho! Ganhamos fôlego para seguir no COLE. E seguindo, bailamos com uma senhora que surgiu diante do maestro e o convidou. Convidou para dançar. Uma dança suave como o movimento das folhas da paisagem campinense… e ele se rendeu e se surpreendeu: apesar de muito íntimo das palavras, não pôde lê-las, apenas senti-las, quando pousaram nos lábios da senhora que as deixou passear pelos seus ouvidos:

- Muito obrigada, senhor, por bailar comigo essa manhã!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

SUA QUALIFICAÇÃO É AGORA?

Vida de doutor é fogo! Bem que o companheiro de copo disse outro dia: "rapaz, não vá que é barril!". Eu não escutei, não é mesmo? O barril de pólvora nem bem pulou para o meu quarto, já está na iminência de explodir.

Digo isso porque a caminho da bendita reunião para recepção "calourosa" dos doutorandos e mestrandos - quem foi que inventou esses títulos acadêmicos? - já senti o calor maior que o que já ferve Salvador. Sim, olha que não basta esse sol, com os talheres nas mãos, esperando os nossos miolos ficarem bem passado! A reunião de recepção foi pra torrar o cérebro (e outras coisas mais...). Mas deixemos quieto essa parte. O foco da narrativa é outro.

Pois estava indo ao apinhado ambiente da reunião, quando uma calorosa doutora - sim, isso é possível! Vamos acabar com os mitos, não é mesmo? - deixou escapar uma dúvida buliçosa:

- Sua qualificação é agora, dia 11 (se referia a 11 de fevereiro, evidentemente)?

O riso foi o remédio. Para tamanha dor de cabeça e pela sombra de simpatia que acompanhava a doutora, foram preciso risos. E não é que a tese de que o riso cura tudo se comprovou? Nem bem tinha ingressado no Doutorado e lá vinham as faíscas atiçadas sussurrando para provocar incêndio! Nada de qualificação! Qualificação é pra quem já está com os calçados gastos na pós-graduação! E eu nem tinha esquentado os pés no doutorado...

Lição: quando você pensa que o fogo é brando, sua mão já aparece queimada. Fiquem ligados/as!

domingo, 31 de janeiro de 2010

CON(TICO)LOS 1

BATEU O OLHO

Da rua mesmo. Num relance de olhar. Viu sombra de beleza. Bateu olho numa mulata faceira, feito Capitu. Olhar é trair? Quis voltar as vistas. Um assobio de arrependimento. Desenhou ela na mente. Lançou um canto de olho. Desejos atiçando vontade. Uma nuvem perfumada ainda no ar. Dúvida… Lançou mais um canto de olho. E ela fugindo das vistas. Olhar é trair? Queria topar com aquele corpo insinuante. Dúvida… De repente… topa com pedra no caminho e bate com cara no chão.


NU BECO

Voltava para casa e a lua já aquecia a noite. Topou com dois vultos. Eram pivetes. Dá logo a grana! Tira o tênis! Passa a calça! Essa camisa também. Quando pensa que não, estava nu. Os cabras debandaram. Olhou em volta. Ninguém. Rua deserta. De repente, alguns carros. E olha: daqui a pouco ia aparecer alguém. Não facilitou. Tascou a correr. Viu uma galera vindo da festa. Nem deu um minuto, pulou para o beco. Nu beco, se escondeu no escuro. O povo ia passando. Ele olhou para a lua. As vozes ficando mais altas. Ele fechou o olho. Quando acordou, estava no sofá de casa. Ficou sem saber se era sonho ou o haviam descoberto nu beco.


CURIOSIDADE

Escuridão. Até mesmo a lua dormia. Estrelas foram tirar um cochilo. Tudo escuro mesmo. Nem se enxergava a própria sombra. O cara voltava da rua. Barulho? Só dos próprios passos. Nem medo teve. Quem iria roubá-lo? Não havia ninguém... De repente, um ruído. Parou. Outro ruído ainda mais alto. Apressou os passos. O ruído o seguia. Ele mais apressado. Ruído nos seus calcanhares! Ele correu. O ruído mais alto ainda! Não virou para trás. Correu gritando por socorro! Entrou em casa esbaforido. Nem abriu a janela. Deitou suado mesmo e dormiu. Sabia: a curiosidade era grande, mas iria matá-lo. Melhor era não saber.


EMBALAGEM

Entrou no ônibus e sentou-se. Ligou o MP3. Ouvia música quando um perfume o interrompeu. Era uma passageira de pé, ao seu lado. Vistosa. Toda-toda, dizia o povo. O olhar dissimulado. Sabia que estava sendo admirada, mas não dava o braço a torcer. Parou a música. Sua música, agora, era outra. Logo, os passageiros acompanharam aquela melodia. Os olhares todos para ela e a bendita com a atenção nas janelas. Proposital. Todos querendo o seu olhar. Mas nada disso. De repente, o ônibus freou violentamente. Ela foi parar lá na frente. Desgraçado! Ela cuspiu mais algumas palavras. E de repente, os passageiros se voltaram para seus afazeres. Ela era só embalagem.


AVISO

Moradores de terreiro. Ouviam histórias, mas nunca tinham visto nada. Certa vez, num belo dia, resolveram brincar na velha Casa Branca. Corre-pra-lá-corre-pra-cá... tudo parecia na santa paz. Os santos comungavam com as brincadeiras. Entravam e saíam dos quartos. De repente, eles invadiram o quarto de Iemanjá. Quando saíram, pararam um instante. Ambos ouviram nitidamente. A chave rodou do outro lado. O quarto havia sido trancado. E não havia ninguém!!! Danaram a correr. Gritaram por socorro! Teria sido um aviso?


CASO DE POLÍCIA

Diz que o estudante chegou atrasado. Sentou na cadeira e ficou ouvindo música. Professora já estava bem estressada. Olhou pra ele e cismou. ''Mas você não toma jeito! Só chega atrasado!'' Ele resmungou qualquer coisa. Ela gritou para dar o MP4. Ele balançando a cabeça e cantando. Estudantes excitaram-se em coro. Assobiaram no alfabeto inteiro. Instigaram o confronto. A professora estourou e expulsou algumas palavras vermelhas de raiva. Foi o bastante! O jovem levantou, armou o bote e enfiou a mão numa bofetada que ecoou na sala e calou o coro. Professora chorou e saiu da sala. Estudantes nem piscaram olhos. O de MP4 no ouvido caiu fora. Resultado esperado: suspenderam as aulas. Caso de polícia.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

GRAUS DE VIOLÊNCIA

Diz que dois caras sentaram num bar numa noite de sexta-feira para beber e aí a conversa pulou na mesa:

- Na minha área, pivete, o bicho pega!

- Não mais que na minha, meu irmão! Lá ninguém fica bebendo até tarde na rua.

- Oxe! Na minha não vá que é barril! Ninguém nem pára pra tomar umas!

- Ah, então é melhor! Na minha área, a galera dorme tudo cedo. Tem toque de recolher.

- Que mole! Na minha os caras nem precisam dizer que tem toque de recolher. Todo mundo já sabe...

É até bom parar por aqui, leitores! Eu escrevendo já não sei onde isso vai parar... Mas do jeito que a coisa anda nas emissoras de televisão, daqui a pouco vem um acadêmico e fala de graus de violência, classificando em grau um, dois, três, quatro ou cinco... (Se é que isso já não existe!).

domingo, 24 de janeiro de 2010

DE MÃOS DADAS COM EMÍLIA, um anjo de candura

E eis que volto a me sentar diante da tela novamente, caro Lobato. Como o senhor não respondeu a minha provocação, faço outra, porque já estou me acostumando com as mãos de Emília. E tenho que te contar os últimos detalhes... Ela está ainda mais provocativa! Mas é uma provocação cativante... Uma provocação que nos aproxima ainda mais. É uma provocação que me alimenta, meu caro!

Pois bem... Sabe qual foi a última dela? Disse ser um anjo de candura. Quase proclamou. Um anjo que gosta de riscar um pouco de fogo de quando em vez. Gosta sim, mas isso é o que me faz chegar ainda mais perto dela. Ela já está começando a perceber e acho que faz isso só... É sim, Lobato! Emílias são cheias de artes! O fogo não é sinal de afastamento, antes pelo contrário, é fagulha para esquentar ainda mais nossos momentos.

Esse fogo, no entanto, às vezes queima, meu caro Lobato. Como brinco com os dizeres (pelo menos no papel) e brinco também de bulir com a paciência dela, então não acredita que cultivo um bom sentimento... Pensa que, tal como as histórias do Sítio, tudo vem da ficção, tudo é parte de uma imaginação... Que talvez eu esteja fantasiando uma Emília que ela não é. Entende, Lobato? Talvez ela imagine que se trate da sua! Brincadeirinha, grande mestre! Brincadeirinha...

Mas o que estou nutrindo por ela não tem nada de brincadeira... Confiança já tenho de sobra. E tenho aprendido muito com a sinceridade dela. Sinceridade que acende uma faísca de admiração. Tenho certeza que vai crescer ainda mais. Ela se engana pensando que minhas mãos vão se afastar das dela (conto isso cá pra você, Lobato, mas já disse a ela, embora ela ria como que duvidando...). As mãos estão cada vez mais apertadas. Estamos atados, sabe como é? E claro que não é bom ficar sempre de mãos dadas, porque as mãos começam a suar. E aí temos um movimento repentino de afastá-las. Mas esse afastamento é necessário, Lobato. Afinal, sei que você não vive inteiramente para os seus personagens! E olhe que no meu caso, a minha Emília é bem real! Mas afastando as mãos temporariamente, acendemos a saudade. E com isso, as mãos voltam a se procurar delicadamente. Nada de afobação! Nessa hora, é melhor um pouco de tranquilidade para a saudade ir se esvaindo... (Mas te confesso que minhas mãos, às vezes, perdem a compostura...).

Pois Emília tem me tirado de rotina, Lobato! Ela tem me feito olhar para mim. Sim, eu sempre gostei muito de variar os passos... Caminhar nas mesmas bandas nunca foi bom! E você também foi assim. Sempre polemizando... Sempre criando histórias dentro de outras... Pois se Emília foi criação sua, não poderia ser tão previsível. Mas não se iluda, a minha também varia seus passos. É por isso que me encontro com ela. E não falo de esbarros, coisas causuais, estou falando em sintonia... Sim, sintonia mesmo! A sintonia é tão forte que por mais que queiramos largar as mãos de vez, elas (as mãos) se aproximam por uma ligação imanente. Coisa que já tentei explicar em parágrafo anterior, mas que curto mesmo é sentir. E minha Emília também, sinto isso quando deixo as mãos dela repousarem nas minhas.

Vou, então, ficando por aqui. Estou sozinho, mas sei que amanhã reencontro minha Emília. Sim, porque podemos nos distanciar, mas as mãos estão sempre dadas. Dadas, porque estamos cada vez mais próximos um do outro e não há distância física que nos faça desligar, por mais que repitamos isso por impulso. Desligar mesmo, só a luz e o computador.

E aguarde... continuo mandando notícias. Espere pra ver.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ZÉ DO CONTRA

De tanto abraçar causas contrárias as do senso comum, Zé de Teta virou Zé do Contra. Para o leitor ficar informado e não dizer que estou inventando, como foi época de ano novo, lá vamos nós contar uma historinha da virada.

Zé do Contra, sempre acostumado a passar ano novo no seu casebre numa rua esquecida pelas grandes emissoras de televisão, decidiu ir ao Farol da Barra. Queria ver como todo mundo vivia a festa. Mas como era do Contra, já foi demais ele ter ido ao farol como quase todo mundo. Para contrariar, não foi de branco. Foi de preto. Era um modo de dizer "meus pêsames" ao ano que viria.

O leitor mais afoito poderia perguntar: por quê? E Zé do Contra responderia: "olhe pra sua vida e responda você mesmo". Essa de oferecer a resposta não era bem arte de Zé. A pessoa que catasse a resposta de um conjunto de palavras disponíveis. Entre outras coisas, gostava também de vestir roupas costuradas por sua mãe, Teta, apelidada desse modo porque sempre "amamentou o mundo inteiro", diziam as amigas. As roupas da mãe evitavam que ele vivesse comendo roupas que as propagandas empurravam goela abaixo. Já deu pra notar, né? Coisas de Zé...

Mas, seguindo a linha narrativa, Zé nem bem pisou no Farol, já começou a ser observado. Afinal, estava de preto. E nem bem olhou para todo o cenário da festa, já começou a se incomodar. Pensou que se o ano que estava chegando merecia aquele fuzuê todo, o ano que tava morrendo merecia alguém que se lastimasse por ele. Decidiu, então, dar outro motivo para o traje preto. Zé do Contra resolveu ser o representante do enterro do ano que havia passado. Ficou de luto, mandou trazer o caixão com as flores, chamou alguns parentes que aderiram ao movimento e no meio da festança toda, destoou.

Pois não foi que a cada rodada de fogos em comemoração ao ano novo, uma queixa por parte do grupo que tramou o enterro. A queixa começou a ser mais frequente, de modo que quando os fogos terminaram e a música começou, o grupo de Zé do Contra passou a incomodar. E para não contaminar a alegria que estava presente, um sujeito foi ter com a polícia.

Chegada a tropa, o enterro virou pó. E a cinzas não foram para o mar não. As cinzas foram rumadas na delegacia. Aquele povo todo vestido de preto não podia tumultuar o ambiente. Onde já se viu!

Bom, e foi assim que Zé do Contra chegou a conclusão de que no fundo mesmo as pessoas gostavam do ano como estava. Bastava tentar mudar alguma coisa, qualquer coisinha miúda e a tudo mudava de figura. Nem pôde começar diferente, porque a novidade do ano era nova demais pra ser verdade!