domingo, 31 de janeiro de 2010

CON(TICO)LOS 1

BATEU O OLHO

Da rua mesmo. Num relance de olhar. Viu sombra de beleza. Bateu olho numa mulata faceira, feito Capitu. Olhar é trair? Quis voltar as vistas. Um assobio de arrependimento. Desenhou ela na mente. Lançou um canto de olho. Desejos atiçando vontade. Uma nuvem perfumada ainda no ar. Dúvida… Lançou mais um canto de olho. E ela fugindo das vistas. Olhar é trair? Queria topar com aquele corpo insinuante. Dúvida… De repente… topa com pedra no caminho e bate com cara no chão.


NU BECO

Voltava para casa e a lua já aquecia a noite. Topou com dois vultos. Eram pivetes. Dá logo a grana! Tira o tênis! Passa a calça! Essa camisa também. Quando pensa que não, estava nu. Os cabras debandaram. Olhou em volta. Ninguém. Rua deserta. De repente, alguns carros. E olha: daqui a pouco ia aparecer alguém. Não facilitou. Tascou a correr. Viu uma galera vindo da festa. Nem deu um minuto, pulou para o beco. Nu beco, se escondeu no escuro. O povo ia passando. Ele olhou para a lua. As vozes ficando mais altas. Ele fechou o olho. Quando acordou, estava no sofá de casa. Ficou sem saber se era sonho ou o haviam descoberto nu beco.


CURIOSIDADE

Escuridão. Até mesmo a lua dormia. Estrelas foram tirar um cochilo. Tudo escuro mesmo. Nem se enxergava a própria sombra. O cara voltava da rua. Barulho? Só dos próprios passos. Nem medo teve. Quem iria roubá-lo? Não havia ninguém... De repente, um ruído. Parou. Outro ruído ainda mais alto. Apressou os passos. O ruído o seguia. Ele mais apressado. Ruído nos seus calcanhares! Ele correu. O ruído mais alto ainda! Não virou para trás. Correu gritando por socorro! Entrou em casa esbaforido. Nem abriu a janela. Deitou suado mesmo e dormiu. Sabia: a curiosidade era grande, mas iria matá-lo. Melhor era não saber.


EMBALAGEM

Entrou no ônibus e sentou-se. Ligou o MP3. Ouvia música quando um perfume o interrompeu. Era uma passageira de pé, ao seu lado. Vistosa. Toda-toda, dizia o povo. O olhar dissimulado. Sabia que estava sendo admirada, mas não dava o braço a torcer. Parou a música. Sua música, agora, era outra. Logo, os passageiros acompanharam aquela melodia. Os olhares todos para ela e a bendita com a atenção nas janelas. Proposital. Todos querendo o seu olhar. Mas nada disso. De repente, o ônibus freou violentamente. Ela foi parar lá na frente. Desgraçado! Ela cuspiu mais algumas palavras. E de repente, os passageiros se voltaram para seus afazeres. Ela era só embalagem.


AVISO

Moradores de terreiro. Ouviam histórias, mas nunca tinham visto nada. Certa vez, num belo dia, resolveram brincar na velha Casa Branca. Corre-pra-lá-corre-pra-cá... tudo parecia na santa paz. Os santos comungavam com as brincadeiras. Entravam e saíam dos quartos. De repente, eles invadiram o quarto de Iemanjá. Quando saíram, pararam um instante. Ambos ouviram nitidamente. A chave rodou do outro lado. O quarto havia sido trancado. E não havia ninguém!!! Danaram a correr. Gritaram por socorro! Teria sido um aviso?


CASO DE POLÍCIA

Diz que o estudante chegou atrasado. Sentou na cadeira e ficou ouvindo música. Professora já estava bem estressada. Olhou pra ele e cismou. ''Mas você não toma jeito! Só chega atrasado!'' Ele resmungou qualquer coisa. Ela gritou para dar o MP4. Ele balançando a cabeça e cantando. Estudantes excitaram-se em coro. Assobiaram no alfabeto inteiro. Instigaram o confronto. A professora estourou e expulsou algumas palavras vermelhas de raiva. Foi o bastante! O jovem levantou, armou o bote e enfiou a mão numa bofetada que ecoou na sala e calou o coro. Professora chorou e saiu da sala. Estudantes nem piscaram olhos. O de MP4 no ouvido caiu fora. Resultado esperado: suspenderam as aulas. Caso de polícia.

2 comentários:

  1. Nossa! Cada vez escrevendo melhor sobre o cotidiano... Quando leio seus textos, parece tão fácil... Talvez por ser tão seu, tão natural! Bjim, de sua irmã

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  2. Tenho acompanhado seus textos, e estou gostando cada vez mais... Muito bom. Vou matando a saudade dos momentos maravilhosos da faculdade. Parabéns! 1 abraço.

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