terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ZÉ DO CONTRA

De tanto abraçar causas contrárias as do senso comum, Zé de Teta virou Zé do Contra. Para o leitor ficar informado e não dizer que estou inventando, como foi época de ano novo, lá vamos nós contar uma historinha da virada.

Zé do Contra, sempre acostumado a passar ano novo no seu casebre numa rua esquecida pelas grandes emissoras de televisão, decidiu ir ao Farol da Barra. Queria ver como todo mundo vivia a festa. Mas como era do Contra, já foi demais ele ter ido ao farol como quase todo mundo. Para contrariar, não foi de branco. Foi de preto. Era um modo de dizer "meus pêsames" ao ano que viria.

O leitor mais afoito poderia perguntar: por quê? E Zé do Contra responderia: "olhe pra sua vida e responda você mesmo". Essa de oferecer a resposta não era bem arte de Zé. A pessoa que catasse a resposta de um conjunto de palavras disponíveis. Entre outras coisas, gostava também de vestir roupas costuradas por sua mãe, Teta, apelidada desse modo porque sempre "amamentou o mundo inteiro", diziam as amigas. As roupas da mãe evitavam que ele vivesse comendo roupas que as propagandas empurravam goela abaixo. Já deu pra notar, né? Coisas de Zé...

Mas, seguindo a linha narrativa, Zé nem bem pisou no Farol, já começou a ser observado. Afinal, estava de preto. E nem bem olhou para todo o cenário da festa, já começou a se incomodar. Pensou que se o ano que estava chegando merecia aquele fuzuê todo, o ano que tava morrendo merecia alguém que se lastimasse por ele. Decidiu, então, dar outro motivo para o traje preto. Zé do Contra resolveu ser o representante do enterro do ano que havia passado. Ficou de luto, mandou trazer o caixão com as flores, chamou alguns parentes que aderiram ao movimento e no meio da festança toda, destoou.

Pois não foi que a cada rodada de fogos em comemoração ao ano novo, uma queixa por parte do grupo que tramou o enterro. A queixa começou a ser mais frequente, de modo que quando os fogos terminaram e a música começou, o grupo de Zé do Contra passou a incomodar. E para não contaminar a alegria que estava presente, um sujeito foi ter com a polícia.

Chegada a tropa, o enterro virou pó. E a cinzas não foram para o mar não. As cinzas foram rumadas na delegacia. Aquele povo todo vestido de preto não podia tumultuar o ambiente. Onde já se viu!

Bom, e foi assim que Zé do Contra chegou a conclusão de que no fundo mesmo as pessoas gostavam do ano como estava. Bastava tentar mudar alguma coisa, qualquer coisinha miúda e a tudo mudava de figura. Nem pôde começar diferente, porque a novidade do ano era nova demais pra ser verdade!

3 comentários:

  1. Muito atraente a história do Zé do Contra e contraditória com o q se v nas praias de Salvador e tantas outras.

    ResponderExcluir
  2. É mesmo Tico!
    Muita sintonia entre os dois textos. Creio que muita gente está sentindo a mesma coisa. Mas não expressa. Talvez porque não acredite nas alternativas que se apresentam, todas engolidas pela regulação. Por isso que tenho a impressão que devo me aprofundar cada vez mais nas idéias de Boaventura de S. Santos, quando ele diz que as alternativas emancipatórias são transformadas em expressões regulatórias, não havendo saída emancipatória nos quadros da modernidade e do capitalismo. Boaventura de Sousa Santos nos assinala a mudança entre expectativas e experiências. Antes, as expectativas eram otimistas enquanto as experiências eram pessimistas. O papel da Teoria Crítica era justamente propor um futuro onde as expectativas superassem, pela transformação social, as epxeriências. Hoje, entretanto, às experiências negativas de hoje, seguem-se outras experiências ainda mais negativas. AS expectativas se resumem em manter o presente, pois o Brasil, que era o país do futuro, segundo Cristovam Buarque, agora é o país que tem medo do futuro.
    Um abraço e continue produzindo reflexões pra gente produzir ainda mais...

    ResponderExcluir
  3. pois eh marcia e zelito... no fundo parece q nós todos temos um pouco de zé do contra, mas alguns tem coragem pra revelar nas ações ou nas palavras, outros n... saudações!

    ResponderExcluir