domingo, 11 de abril de 2010

JULIO E AS MOSCAS

Diz que o sujeito foi trabalhar no interior e logo que chegou na pousada foi recepcionado pelas clientes preferenciais. Nada de empregados em quantidade, mesmo porque negócio que se preze hoje carece de empregados, mas não de trabalho. E ali não era diferente. Em grande metrópole ou em cidade do interior (se é que é possível dizer que aquela era uma cidade do interior), a regra era a mesma: quanto mais o trabalhador conseguia acumular funções, mais era competente Então, o sujeito aprendia de tudo um pouco para agradar o patrão. Dar dor de cabeça ao chefe não era um bom sinal. Afinal, a fila andava rapidinho!

Pois a dor de cabeça do sujeito foi outra: as moscas. Em vez de recepcionado por elas, seria melhor dizer que foi espantado! Quem pensa que elas se curvaram diante dele, se enganou e muito! Elas já foram marcando território. E sabe qual era o jeito de fazerem isso? Nada de urinar, como faziam os cães. Não! As moscas voavam pelo espaço afora. Se a comida era servida, elas já estavam lá beliscando. Se a porta do quarto era aberta, elas já estavam pela cama, pela pia, pelos cantos com toda sua família. O cara tinha de conviver com todas, e nem tinha casado com uma mosquinha que fosse! E olha que a família era mais numerosa que de qualquer leitor ou leitora.

Foi aí que Julio (o tal sujeito) percebeu que já tinha perdido o terreno antes mesmo do jogo começar. Quem podia com as moscas? Nem mesmo o truque de colocar sacos plásticos cheios de água na parte superior das portas não funcionava. Aquele truque era velho! As moscas eram contemporâneas, aprendiam rápido, tal qual as crianças diante dos computadores. Adaptavam-se a tudo. Se bobear ainda piscavam o olho e diziam:

- Ô, brother! Essa aí não engana nem mosca morta, quanto mais nós que temos olhos nas costas!

E Julio viu que ou dividia o espaço com elas ou então iria realmente comer mosca. Com muito sacrifício decidiu dividir o espaço. Como eram muitas, teve de comer o resto da comida delas, teve de dormir protegido da nuvem que faziam, teve de tomar banho no quintal da pousada, pois elas ainda estavam zumbindo pelo banheiro...

Não resistiu. Foi ter com o único empregado da pousada para exigir uma atitude. E o pobre do empregado foi com uma daquelas inseticidas buscando resolver o problema de vez. É, mas parece que as moscas se fortaleciam com aquelas esguichadas venenosas.

- Oxe, veneno? Pra nós isso é um energético, cara! Isso deixa a gente agitada! Dá um gás danado!

- Tá! Eu desisto! Se não posso com elas, me junto a elas!

E foi assim que Julio foi dominado pelas moscas. Com o tempo, diz que até historinha ele contava para elas dormirem. As más línguas dizem que o sujeito virou mesmo foi cão de guarda. Protegia as moscas de outros hóspedes. Sobrou até para o empregado e para o dono da pousada. Contam que, em poucos dias, elas viram empresárias... já pensaram?

Em homenagem a um recente grande amigo Júlio Cezar.

Um comentário:

  1. Eu conheço outro sujeito que também teve de conviver com as moscas, lá em... você sabe. Ele está pensando em levar uma raquete elétrica para assá-las. Ele andava para formigas, agora sobrevoa seu pensamento umas idéias de moscas. Não tem tempo pra outra coisa! Moscas, moscas, moscas. Pensou até em fazer amizade com algumas, mas desistiu, elas não conseguem se concentrar num assunto só. A raquete já está na mala, mas, por essa semana elas estão a salvo, pois ele está em estado greve.

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