segunda-feira, 31 de outubro de 2011

IDENTIDADE, CPF, COMPROVANTE DE RESIDÊNCIA

Texto inspirado no filme "O Palhaço", dirigido por Selton Mello

Já estou imaginando o dia em que as coisas vão chegar a tal ponto que ninguém vai ter para onde correr. Qualquer que seja o pedido, o sujeito terá que apresentar documentação. Pois então, vejam o caso de João.
Estava ele, certa feita, num ponto de ônibus esperando a condução, quando viu uma mulher linda, segundo seu julgamento:
— Que beleza! O que tenho que fazer pra sair com um mulherão como tu?
— Identidade, CPF, Comprovante de Residência.
— Hein?
— Isso mesmo. Identidade, CPF, Comprovante de Residência.
Como era um João ninguém, mal tinha uma identidade - a dele estava na UTI -, nem ousou seguir a conversa.
Pegou seu ônibus. Saltou numa praia. O sol estava bom naquele dia. Ia aproveitar que não era dia de pegar no batente. Quando estava caminhando na areia, um rapaz o abordou.
— Vai querer uma cadeira e um guarda sol?
— Vou sim.
— Identidade, CPF, Comprovante de Residência.
— Ficou doido?
— É o que você vai precisar pra alugar: identidade, CPF, comprovante de residência.
Saiu resmungando da praia. Resolveu mudar o destino. Assim não era possível! Ficava inviável curtir o dia numa areia tão quente como aquela, sem uma cadeira de sol! Se ao menos tivesse trazido uma toalha, ou uma canga… Mas, para isso, tinha que ter dinheiro. E estava sem. Então, foi ao caixa eletrônico. Estava fazendo a operação quando apareceram três informações para completar a ação: IDENTIDADE, CPF, COMPROVANTE DE RESIDÊNCIA.
— Mas o que é isso? Assim não é possível!!! Até a peste da máquina me pede documentos que não tenho? Aí também é demais! Só em uma história boba como essa pra eu ter que apresentar tanta documentação! Pois eu protesto! Quero o fim da história agora! Não aguento mais tanta burocracia! Agora mesmo! Fim dessa porcaria!
Mal sabia João. O final da história, só com Identidade, CPF, Comprovante de Residência…

EMILIA BLACK

E aí, Lobato? Tenho uma novidade que o senhor não vai engolir, mesmo porque engolir fios de cabelo não é lá coisa que se faça. Minha Emília está Black! E como está mais bonita! Acho que mais que a sua (aqueles cabelos coloridos já saíram de moda…). Mas o Black não está na moda; já esteve em outras primaveras… Hoje a moda é cabelo de supermercado. Sabe como é isso? Ficam ali, estáticos, na prateleira, para agradar a consumidores. Ingredientes e mais ingredientes para deixá-lo ali, comportadinho. À maneira que agrada qualquer pessoa refém de controle remoto. Pior é que pensam que estão controlando, mudando de canais; mas quem os controla é o aparelho de TV: dizem o que comprar, o que comer, o que fazer, o que não fazer, o que e como cantar e por aí vai. Mas isso é texto para outra janela, outro link, outros fios… Quem sabe algum/a leitor/a resolva ampliar essas palavrinhas, fazer um mega hair. Bom, mas como dizia, os cabelos da moda são os para serem espiados, iguais a produtos na prateleira dos mercados. A diferença é que todo mundo não pode ficar mexendo porque aí já viu né? Mulher não gosta que mexa nos cabelos… Motivo para uma Guerra Continental.

No caso de minha Emília, os fios encaracolados não conseguem se aquietar. São bem autônomos. Fortes como a personalidade dela. Porque uma pessoa como ela não pode combinar com “cabelo de verão”, é ou não é? Pentear faz parte, mas não obedecem aos comandos. De quando em vez, aprontam pra cima dela. Tentam se rebelar contra a harmonia tão imposta hoje em dia. E não adianta creme nenhum! Eles resistem bravamente! E eu gosto.

Como um cabelo pode mudar tanto uma pessoa! Mudam-se os cabelos, mudam-se as vontades – como bem observou, com outros versos, o amigo Camões. E Emília mudou: de personalidade e de cabelo. Sim, caro Lobato! Ela ficou ainda mais mulher. Cresceu! Mas não cresceu por causa do cabelo Black não! Cresceu na sensibilidade, na clareza das coisas… Culpa do cabelo? Talvez, inspirada em Sansão, um pouco da força dela esteja nos cabelos! Brincadeirinha, Lobato (brincadeirinha, Emília!)!

Bom, vou indo porque hoje estou sem criatividade (e sem cabelo também). Acho que metade da minha criatividade se foi com os fios… E escrevendo besteiras posso deixar os/as leitores/as de cabelos em pé! Segure as pontas aí, Lobato! Volto noutra oportunidade…