quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

MATUTANDO...

Tem que estudar... Bem que Naiana podia me perdoar. Acho que o jogo do São Paulo é hoje. Rapaz, mas como vou estudar sem o livro que emprestei pra Charles? Acho que Naiana gosta mesmo é de outro... Com aquele time, sei não! Seria melhor se contratasse algum jogador de peso! Que dor no estômago estranho! Preciso ver isso... Mas Naiana é uma piriguete mesmo! Como foi sair justo hoje? Ainda sozinha! Acho que o goleiro nem vai ser escalado. Vou tirar um zero... Porra, Naiana! Você não merece essa consideração toda, não! Será que chego a tempo de pegar a primeira sessão? Quem sabe não consigo alguma doida por lá... Naiana, Naiana! Você que tome juízo! Mas que diabo de dor de estômago insuportável! Será que Charles devolve o livro se eu pedir? Poxa, nem olhei quanto tinha de grana na conta... Tomara que aqueles sacanas me paguem amanhã! Naiana, onde tu tá, sua gostosa? Meu time que não perca hoje pra ninguém me sacanear amanhã! Olha, Naiana, só vou...

- Anda logo, merda! - Passou a marcha depois de ouvir o grito e saiu do cruzamento.

CHORANDO O CHORINHO

E foi aquela agonia, aquela festa quando uma das meninas resolveu dar corda para um tal chorinho que ia deixar a noite menos chorosa e mais melodiosa. Fez a propaganda, ensaiou o contato, orquestrou um transporte alternativo para o barzinho e pronto! Acendeu o grupo.

Ossos do ofício, tiveram de frequentar a manhã de mesas redondas e a tarde de sessões de comunicação no enorme campus da Universidade de Campinas. Mas logo viria a noite e, apesar do tempo friozinho, a ansiedade ardia em cada membro do grupo de professoras e a afinação parecia caminhar para um final de noite de bom lazer.

Hora do jantar. A tal regente não aparecera para dar o ar da graça e para fazer o chorinho tocar até altas horas. Foi o primeiro ruído… E olhe que o frio já dava sinais de que aquela era para ser uma noite de dança. Mas, os primeiros passos estavam sendo ensaiados para o caminho de casa. Isso sim. E essa dança não era lá muito boa de ser praticada.

No entanto, em todo grupo que se preze tem aquele que abana o fogo para ver se as chamas reacendem. E foi isso que aconteceu. Procura de lá, liga de cá, e a turma começou foi a tentar outro ritmo. O fato é que a vontade foi se esconder debaixo das cobertas. E não teve santo de casa que afinasse o coral de mulheres.

Ainda hoje, já em Salvador, há quem chore o chorinho não derramado; digo, não entoado. O tom da euforia foi bem desafinado em relação ao tempo e também ao sumiço da maestrina. Mas, como diz o ditado, antes só do que mal encaminhado!

Segunda crônica da prometida obra, fruto da viagem para Campinas-SP, para participar do Congresso de Leitura do Brasil (COLE), em 2009.

BAILANDO COM LOYOLA

Estávamos passeando nos estandes e o som das palmas ecoou nos convocando para um baile. O baile das palavras ocorria no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp. Baile que partia de um maestro: Inácio Loyola Brandão. Dia inesquecível do 17º Congresso de Leitura. Dia em que o som das palavras alimentou um Ginásio inteiro e duas pessoas (que nem pretensão tinham de saborear a fala do tal maestro) e assistiram a tudo, atônitos e de pé. Éramos nós.


Momento ímpar em que aprendemos a dançar um outro ritmo. Um ritmo de uma das escolas de Terezina, no Piauí… uma escola de um bairro pobre, bem pobre (da periferia, da periferia, da periferia, como cantou Loyola), mas rico (com cédulas de palavras!) de histórias! Rico de leituras.

Bailamos em meio a esses estudantes dessa escola e ouvimos suas experiências leitoras, apesar de todas as drogas no caminho… os estudantes liam. Liam para sobreviver em meio a alternativas vacilantes. E liam para contar aos colegas. Liam para oferecer-lhes palavras. Liam para saciar a sede de Literatura que devia alimentá-los.

E tudo começou não num reino distante das páginas de livros de contos de fadas. Tudo começou ali, em Terezina, com a disposição de alguns professores, que acharam que aula de leitura era também aula e não enrolação. E começaram com leituras. Depois os estudantes começaram a ler para contar. E daí, as aprendizagens foram acontecendo... um pouco como aconteceu com nós dois, que parados diante do maestro, ouvíamos as histórias de Loyola e aprendíamos a como dizer o mesmo de modo diferente e simples.

Como aprendemos a dançar com essas palavras do dia 22 de julho! Ganhamos fôlego para seguir no COLE. E seguindo, bailamos com uma senhora que surgiu diante do maestro e o convidou. Convidou para dançar. Uma dança suave como o movimento das folhas da paisagem campinense… e ele se rendeu e se surpreendeu: apesar de muito íntimo das palavras, não pôde lê-las, apenas senti-las, quando pousaram nos lábios da senhora que as deixou passear pelos seus ouvidos:

- Muito obrigada, senhor, por bailar comigo essa manhã!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

SUA QUALIFICAÇÃO É AGORA?

Vida de doutor é fogo! Bem que o companheiro de copo disse outro dia: "rapaz, não vá que é barril!". Eu não escutei, não é mesmo? O barril de pólvora nem bem pulou para o meu quarto, já está na iminência de explodir.

Digo isso porque a caminho da bendita reunião para recepção "calourosa" dos doutorandos e mestrandos - quem foi que inventou esses títulos acadêmicos? - já senti o calor maior que o que já ferve Salvador. Sim, olha que não basta esse sol, com os talheres nas mãos, esperando os nossos miolos ficarem bem passado! A reunião de recepção foi pra torrar o cérebro (e outras coisas mais...). Mas deixemos quieto essa parte. O foco da narrativa é outro.

Pois estava indo ao apinhado ambiente da reunião, quando uma calorosa doutora - sim, isso é possível! Vamos acabar com os mitos, não é mesmo? - deixou escapar uma dúvida buliçosa:

- Sua qualificação é agora, dia 11 (se referia a 11 de fevereiro, evidentemente)?

O riso foi o remédio. Para tamanha dor de cabeça e pela sombra de simpatia que acompanhava a doutora, foram preciso risos. E não é que a tese de que o riso cura tudo se comprovou? Nem bem tinha ingressado no Doutorado e lá vinham as faíscas atiçadas sussurrando para provocar incêndio! Nada de qualificação! Qualificação é pra quem já está com os calçados gastos na pós-graduação! E eu nem tinha esquentado os pés no doutorado...

Lição: quando você pensa que o fogo é brando, sua mão já aparece queimada. Fiquem ligados/as!